sábado, 25 de setembro de 2021

 

2. Mata Selvagem

 

 

Aqui estou eu novamente meus queridos amigos! Antes de darmos continuidade as minhas memórias, eu gostaria de agradecer por terem voltado aqui para saber o que aconteceu comigo. Hoje estou totalmente sóbrio. Mas como ninguém é de ferro e eu já não sou tão novo quanto gostaria, pode ser que eu recorra ao álcool para regar minhas memórias antigas e fazer com que aflorem um pouco mais.

 

Em minha jornada atrás do fogoso casal, eu e Robert, que também estava sóbrio para se manter na carroça, seguimos em direção ao norte pelas estradas de Threor. Meus planos de Erevar tomaram o caminho oposto e bem, confesso que foi a melhor decisão que eu tomei, pois fui levado a caminhos além da imaginação. Depois do vilarejo onde conheci meu querido companheiro de viagem de faculdades mentais duvidosas, avançamos por cerca de três dias numa estrada de barro. Robert longe das bebidas era um homem calado, mais sério e chegava até a ser assustador quando queria. Contei a ele toda a minha história de vida e a cada frase de efeito ele respondia com um “Entendi”, tão emocionante que faria inveja à uma múmia entediada. Mas eu me sentia melhor com ele do meu lado, pois ele era assustador e eu ... Bem, parecia um lindo e elegante gato de raça, o que é um prato cheio para os assaltantes das estradas. Não que eu esteja feio hoje. Não, não. Muito pelo contrário. Digamos que eu estou mais parecido com um vinho que só melhorou ao longo dos anos.

 

Enquanto eu tentava compor uma canção nova sobre Mimosa, Robert ansiava pela próxima parada para poder encher a cara. O que não seria possível durante algum tempo, pois cruzávamos os Campos Verdes, um extenso tapete de grama e mais grama que se estendia por quase duas milhas ao nosso redor.  Lá longe podíamos ver a orla da floresta de Briack se distanciando cada vez mais, mas o que chamou realmente minha atenção foi um pequeno grupo de centauros galopando pela grama. Sim, os Campos verdes de Threor tinham comunidades de centauros que ocupavam a região. Eram comunidades pequenas e discretas, longe de todo o caos urbano. Eles saíam da floresta de maneira graciosa. Notei que portavam arcos e lanças. Provavelmente estavam caçando. Pararam quando nos notaram e nos encararam com olhares curiosos. Eram seis ao todo. Três machos, duas fêmeas e um filhote. Trajavam na parte humanoide algo que eu acreditei ser couro, mas pela distância não tinha como ter certeza. Queria poder vê-los mais de perto, mas eu sabia que se me aproximasse eles poderiam fugir ou me atacar. Então os deixei em sua simplicidade e segui pelos campos com meu companheiro alcóolico.

 

Robert reclamava com o velho pangaré dizendo que ele não servia mais para nada e que o trocaria por uma garrafa de whisky na primeira oportunidade. O pobre animal com uma inteligência aparentemente superior ao do seu dono o ignorava com bastante eficácia e eu confesso que me chateei em ter que parar minha composição para chamar a atenção do carroceiro.

 

- Porque insiste em atormentar esse pobre animal? Melhor, porque não consegue se manter sóbrio por tanto tempo? – Questionei a ele enquanto dedilhava o alaúde buscando rimar algumas palavras.

 

- Esse infeliz sabe que são só ameaças vazias. – Mandou um beijo para o cavalo. – E porque depois que eu voltar a trabalhar não sei quando poderei encher a cara desse jeito novamente.

 

- Dó com Si... Talvez um Lá menor... Perdoe-me a indiscrição, Robert, mas em que você trabalha?

Robert deu um sorriso de canto de boca que me deu um leve arrepio na espinha e eu achei melhor para o meu bem e de minha ceroula não insistir no assunto, então mudei o rumo da conversa.

 

- Acha que estamos próximos?

 

- Não vai demorar muito, eu acredito. Eles estão a pé, nós seguimos montados. Acredito que até o pôr do sol alcançaremos eles. – Robert cuspiu no chão. – Agora fique calado, estamos nos aproximando de Mata Selvagem.

 

Pra quem não sabe, Mata Selvagem é a floresta mais assustadora de Threor. Briack. Faz medo? Faz. Lá tem bárbaros e druidas que soltam seus prisioneiros na floresta apenas para caçá-los. Em Mata Selvagem temos bárbaros que nem se dão ao trabalho de fazer prisioneiros, além de que a floresta é infestada de lobos e como se isso não bastasse, ainda é famosa por ser extremamente expeça, o que facilita assaltantes de se esconderem lá.

 

Minha alegria de unicórnio foi se esvaindo a medida que eu avançava para dentro da floresta. E não riam pelo fato de eu ter dito que eu tinha a alegria de um unicórnio, pois eles realmente são seres alegres. Mas isso é uma outra história. Voltando, Mata Selvagem era ainda mais assustador do que descreviam. O lugar era basicamente de faias e bétulas. Consegui identificar ali também alguns carvalhos e nogueiras mais ao fundo e confesso que estava sem a menor vontade de ver que tipo de vegetação poderia encontrar ali. Na época da faculdade, eu tive um breve caso com uma professora de geografia, no qual não citarei nomes nem sob tortura, pois não pretendo entregar nenhuma colega de profissão com esses relatos. Ela me disse que a região onde se localizava Mata Selvagem poderia conter uma diversidade de plantas e animais por causa do solo e do clima temperado de Threor, mas na época eu não dei muita importância. Fiz alguma piada infame sobre o que realmente era temperado ela riu e voltamos a coisas mais interessantes que aula. Mas vamos voltar, pois não estou sendo pago pelo reitor para falar de vegetação. Na realidade estou sendo pago para falar de tudo o que eu visse em minha viagem, mas como esses relatos não são acadêmicos e meu bloco de anotações chatas está guardado, vou continuar a história. Por ser o nono mês do ano, estávamos próximos do final do verão e a floresta começava a ganhar aquele tom alaranjado do outono, o que deixava as sombras no coração da floresta ainda mais arrepiantes. A estrada ainda podia ser vista, mas em dois meses no máximo aquilo estaria repleto de folhas mortas que seriam levadas pela chuva e no alto do inverno tudo estaria cheio de neve.

 

Ao oeste eu conseguia ver o Monte Faradar e as ruínas de Ohrein um pouco antes. Ohrein era uma antiga cidade bastante rica até ser consumida pelo fogo de um dragão. Pelo menos foi o que me contaram. Em todos esses anos de vida nunca vi um dragão que não fosse das Escamas Douradas, que é um grupo de cavaleiros que voam montados em dragões. Eles são a arma mais poderosa do imperador numa guerra e eu confesso que por mais empolgante que possa parecer, não é. Eles são realmente assustadores. O que me confortou em passar por ali era que nenhum dragão selvagem era visto há mais de trezentos anos por aquelas bandas. Dizem que a criatura ainda dorme embaixo da cidade, mas tudo o que se sabe é que Ohrein abriga apenas grupos de criminosos foragidos.

 

Saí dos meus devaneios assustadores para encontrar a realidade com uma flecha atingindo a carroça de Robert. Quando vi a haste balançando pensei que meus olhos sairiam do lugar de tanto que os arregalei. Outra flecha zuniu na minha frente e de maneira bastante corajosa eu me joguei de cima de Trovão para atrás da carroça de Robert.

 

- Vamos morrer! – Eu gritei de maneira calma.

 

- Cale a boca e tente ficar parado. – Disse Robert tirando de dentro da carroça um arco e uma aljava cheia de flechas.

 

Como assim ele tinha um arco?! Pelo que aquele homem conseguia beber deveria ser proibido de portar armas, poderia acertar o próprio pé. Mas graças a Dahila, ele parecia saber o que estava fazendo. Depois de três flechas disparadas os sons da floresta pararam. Robert me segurou pela capa e como se eu fosse um nada ele me jogou em cima da carroça e pôs o pangaré a violento galope. Por sorte Trovão estava amarrado à carroça dele e logo começou a correr também. E eu tinha certeza de que minha égua não morreu da troca de flechas enquanto pastava, ela morreria da carreira.

 

A carroça chacoalhava de um lado para o outro e por diversas vezes eu bati em algo duro ali. Levantei a manta que cobria e vi uma armadura negra com detalhes de cobre e um elmo de queixo pontiagudo. Robert olhou por cima do ombro para mim e eu cobri tudo novamente. Não queria provocar meu salvador. No meio do barulho do meu corpo batendo na bagagem de Robert comecei a ouvir um tilintar de metal. Como se estivesse acontecendo uma luta. Arrisquei-me olhar para ver o que acontecia e vi quem eu estava procurando. O guerreiro de Barmarral e a esposa agora vestidos enfrentavam o que parecia ser um grupo de assaltantes. O homem portava uma maça circular coberta com vergalhões por toda a superfície em sua mão esquerda e na direita uma espada longa de cabo dourado com um rubi no centro da guarda. A mulher que estava com ele segurava uma espada curta com as duas mãos e parecia bastante atenta aos homens próximos a ela. 

 

- Segure-se. – Disse Robert. E antes de eu perguntar o motivo ele bateu no cavalo com as rédeas da carroça e aquele velho pangaré começou a correr mais do que um alazão. Olhei para Trovão e minha pobre mula parecia chorar para tentar acompanhar o cavalo de Robert, porque agora eu poderia chama-lo de cavalo, pois depois desse galope havia ganhado meu respeito, ainda que continuasse fedendo como um cadáver. Só entendi o que Robert fez quando atropelamos três dos cinco assaltantes. Ao que parecia o homem e a mulher já haviam dado cabo de pelo menos mais três, pois a maça que ele portava estava suja de sangue com o que eu jurava ser resto de maça cerebral nos vergalhões.

 

Os dois assaltantes que ainda estavam de pé correram para dentro da floresta, mas pelo uivo que eu ouvi imaginei que não iriam muito longe. Me coloquei de pé meio tonto e fui até minha pobre mula para ver como ela estava e parecia meio nervosa. Olhei em volta e vi seis corpos no chão. Os três que Robert atropelou que estavam estirados em posições que eu julguei serem desconfortáveis se eles ainda estivessem vivos, um com a cabeça inteiramente aberta e o maxilar solto numa poça lamacenta de sangue, um com a garganta aberta e o ultimo com um corte em diagonal do ombro a cintura. Há quem ache que matar assaltantes é algo incrível, mas não é. Gente morta é feio. Ainda mais se a morte não tiver sido por causas naturais e pelo meu conhecimento ao longo dos anos, morrer por armas não é algo que possa ser chamado de natural. Talvez comum, mas natural não. E apesar daquela horrível cena, eu ainda estava eufórico.

 

Eu tinha derrotado os meus primeiros assaltantes de estrada! Estava em uma aventura! Sim, eu fiz parte da vitória, pois em nenhum momento eu fugi de fato. Corri para detrás da carroça de Robert para protege-lo antes de saber que ele tinha um arco. Afinal, quem era Robert? Queria perguntar, mas achei mais prudente ficar com minhas perguntas guardadas.

 

- Muito obrigado pela ajuda. – Disse o homem com a maça.

 

- Chegaram no momento certo. – Respondeu a mulher com ele.

 

O homem mesmo sujo de sangue e parecendo de mal humor tinha uma expressão serena no rosto chupado com uma longa cicatriz na bochecha esquerda. Tinha cabelos ruivos e muito curtos, que já começavam a ser tingidos de prata. Usava um manto branco se não fosse o sangue dos assaltantes e por baixo pude notar que trajava uma cota de malha de aço. O broche que prendia sua capa parecia uma fênix, o que me levava a crer que era um servo de Aurion. A mulher mais baixa do que ele por uma cabeça, ainda assim era alta. Tinha cabelos loiros caídos em elegantes ondas. Usava um longo vestido de um amarelo bem suave que tinha uma gola que ia até o pescoço e usava um pingente dourado com uma fênix que ia até o meio dos volumosos seios.

 

Servos de Aurion, deus da luz. Obrigado deuses, por serem servos de um deus benevolente. Não sei o que eu faria se encontrasse um servo de Morrin, ou Mordh.

 

- Meu nome é Barzan. – Disse o homem. – E essa é minha esposa Charlote.

 

Mesmo cobertos de sangue eram extremamente simpáticos e gentis.

 

- Meu nome é Allen Helt. – Me apresentei estendendo a mão de maneira confiante agora que eu estava em segurança. Esse homem comigo é Robert. - Robert e Barzan trocaram um olhar demorado e se contentaram com um aceno com a cabeça.

 

- Era você que estava no estábulo? – Perguntou Barzan.

 

- Eu mesmo. E confesso que por mais... lasciva que tenha sido a noite de vocês, eu agradeço por terem se preocupado com meu sono. Sério, quase não ouvi vocês. – Sorri de maneira cínica.

- Peço desculpas por isso. – Disse Charlote com um tom de voz desafiador levemente tocado por vergonha.

 

Eu esperava muita vergonha, timidez, mas aquilo? Precisava me lembrar de que se fossemos para uma estalagem eu teria que pedir um quarto bem longe deles.

 

- Turk me disse que você lutou em Barmarral, é verdade? – Mudei de assunto antes que fosse eu a ficar constrangido.

 

Barzan e Charlote trocaram um rápido olhar, mas foi Robert que falou.

 

- Vamos deixar pra conversar quando saímos daqui. Logo vai anoitecer e quando isso acontecer pretendo já ter saído dessa maldita floresta com vocês.

 

Era um bom plano.

 

Seguimos o mais rápido que pudemos. Robert levou Barzan e Charlote em sua carroça e pouco antes do sol se pôr por completo já havíamos deixado a floresta. Ao longe conseguíamos ver as luzes dos vilarejos próximos dali, além dos pastos e fazendas que se estendiam agora por nossa frente junto com um céu carmesim de fim de tarde.

 

- É aqui que eu me despeço de você. – Disse Robert de súbito.

 

- Do que você está falando? – Confesso que fiquei surpreso com a abrupta despedida dele.

 

- Meu acordo era trazer você até eles e me manter sóbrio até a próxima parada. – Disse ele de maneira calma. - Você está com eles e eu preciso encher a cara agora e confesso que prefiro beber sozinho do que numa estalagem de algum daqueles vilarejos. Além do que, logo terei que voltar ao trabalho e eu prefiro estar com uma ressaca violenta quando isso acontecer, pois sei que a dor de cabeça que vou ter será terrível.

 

- Sério, Robert, o que diabos você faz?

 

Novamente ele sorriu de maneira desagradável.

 

- Tente ficar vivo, bardo. Espero encontra-lo novamente para ouvir o final da sua música e mais um pouco de suas histórias.

 

Robert deu meia volta no cavalo e voltou em direção a Mata Selvagem antes que eu fizesse qualquer questionamento.

 

- Acabamos de sair daí! – Eu disse a ele, pensando que faria algum efeito. – Pra que você vai voltar se foi o primeiro a dizer que não queria estar nessa floresta.

 

- Eu disse que não queria estar nessa floresta com vocês. – Falou sem olhar pra trás.

 

Confesso que não entendi na hora o motivo dele ter se afastado tão depressa, mas depois quando encontrei com Robert em Valdum após alguns meses ele me explicou o motivo de ter saído daquela maneira e me explicou também o que ele realmente fazia. Mas isso será uma história mais pra frente.

Robert logo sumiu na trilha que dava para aquele lugar horrendo e por incrível que pareça aquela visão dele se afastando me deu a rima que eu precisava para terminar minha música.

 

Calma, deixa eu procurar aqui... Só um momento... Achei!

 

Avançando pelo mundo sem destino

Sigo com Trovão o meu caminho

Sem saber que perigos vou encontrar

Sem saber o que tem nas sombras a me esperar

 

Lembro de um carroceiro bêbado

Que me acompanhou sem medo

Pelos desafios que os deuses deram a mim

Ele e seu velho pangaré só temiam pela bebida já no fim.

 

Era ágil quanto um gato

Matou três, cada um com um disparo

E na floresta por fim desapareceu

Seu acordo comigo e Trovão ele obedeceu.

 

Eu sei, eu sei. Lindo demais. Obrigado, obrigado. Não, não precisa ficar de pé para me aplaudir. Sim, os deuses me agraciaram com uma voz bela e dedos maravilhosos. Enfim, continuando, segui com Charlote e Barzan.

 

Enquanto cruzávamos um grande pasto de fazenda Barzan falou.

 

- O que deseja saber sobre Barmarral? – Perguntou ele meio taciturno.

 

- Como é lá?

 

- Quente como o inferno. – A voz estava tensa. – Imagine um mar de areia se estendendo a sua frente. Dias tão quentes que fazem você pensar em se matar e noites tão frias que fazem um homem querer chorar. A guerra lá não é por causa do faraó como dizem. Bem, não apenas por ele, é claro. O que acontece é que há alguns anos os poços de água que existiam nas cidades foram tomados e devido as guerras nas fronteiras o faraó não conseguia manter as duas frentes militares. Foi aí, que nós entramos. Aurian enviou soldados com o apoio da Catedral do Céu para Barmarral para auxiliarmos o faraó a retomar a água da região, enquanto seu exército lutava nas fronteiras do reino. O problema, é que após conseguirmos recuperar os poços, em vez de irmos, começamos a cobrar impostos. Claro que muitos não gostaram, afinal não se deve negar água e novamente os conflitos começaram. O povo de lá, não queriam aceitar soldados estrangeiros cobrando a elas seu dinheiro e o faraó não poderia ficar contra o apoio da igreja, pois não teria como continuar sua campanha militar. Então a própria população começou a se rebelar e uma nova guerra se iniciou com a água sendo comercializada e apoiada pelo faraó e a igreja. E nós que fomos para salvar o povo, nos tornamos inimigos deles.

 

- Não é essa a história que contam por aqui. 

 

- Nunca é. É mais fácil usar o faraó que apoia a igreja como vilão e nós os salvadores, do que nós também sermos vistos com maus olhos. Infelizmente a alta cúpula da catedral tem visado mais os tesouros que o império do sol têm, do que a própria vida do povo. 

 

Era notória a decepção em sua voz. 

 

- E quanto a você?

 

- Devido à um ferimento que quase me matou eu consegui voltar pra cá. Tivemos uma luta violenta próximo de Maleha e se não fosse Charlote e a Ordem do Pássaro Vermelho eu estaria morto. Ela cuidou de mim até que eu pudesse ficar de pé novamente e depois disso sempre que era possível eu ia visitá-la.

 

Charlote passou o braço em volta do braço do marido. Era bom ver a sintonia que eles tinham. A cumplicidade, a parceria. Sonhava em encontrar alguém assim um dia.

 

- Acha que essas disputas podem causar uma guerra entre nós e o Império do sol? – Perguntei enquanto cruzávamos as fazendas. Como Charlote e Barzan estavam a pé eu decidi acompanhá-los.

 

- É pouco provável, pois o faraó tem apoio dos sultões que comandam os reinos. A menos que ele seja destronado pelo povo ou os chefes tribais e o sucessor decidam se virar contra Eohen, dificilmente entraremos em guerra. Na minha opinião, aquele lugar não tem nada. Barmarral não passa de um grande deserto povoado. – Terminou amargo.

 

Fiquei processando a nossa breve conversa enquanto avançávamos silenciosamente pela estrada. Eu queria continuar conversando, mas estava cansado e pelo jeito Barzan e Charlote também, pois assim como eu eles não falaram muito.

Caminhamos até Faurar, uma cidade pequena ainda em Threor, para encontrarmos uma estalagem em que pudéssemos passar a noite para na manhã seguinte pegarmos a estrada. O lugar era bem movimentado e se encontrava no centro da cidade, próximo de uma grande praça onde no centro havia uma igreja voltada para todo o panteão. 

Na estalagem eu pedi o quarto mais longe do deles para conseguir dormir bem e confesso que pelo cansaço que eu estava, mesmo que eles estivessem fornicando como demônios do meu lado eu teria dormido como uma pedra.

domingo, 19 de setembro de 2021

As Aventuras de Allen Helt

 

1. O Carroceiro Bêbado.

 

 

Saudações, meus amigos! Fico feliz em saber que vocês vieram presenciar minhas jornadas ao redor de toda Anzahil e seus três impérios. Pretendo trazer a vocês um pouco da minha visão desse incrível mundo em que vivemos. Como alguns sabem, eu sou um mero bardo andarilho. A sola de minhas botas está repleta de lama e poeira das longas estradas no qual percorri e durante anos cruzei os seis mares de nosso continente. Passei pelos reinos do Império de Eohen, onde estive das mais altas torres, às mais profundas masmorras, jantei com reis em grandes salões e com camponeses em tavernas. Cruzei as terras áridas do Império Saudaham, onde vi mares de areia e tribos bárbaras tão evoluídas quanto se possa imaginar. Conheci também o império de Toitsu e seus costumes e tradições de eras. Conheci dos mais incríveis heróis aos mais odiosos vilões! E vi que o mundo não é apenas feito de pessoas boas e más e sim de pessoas comuns, como eu e vocês que aqui estão nesse momento.

 

Mas ouçam quem vos diz agora, pois os relatos precisam continuar e por isso serei breve em minha apresentação sobre minha humilde pessoa. Meu nome é Allen Helt. Talvez a maioria de vocês não me conheçam pelo meu nome de batismo e sim pela minha alcunha conquistada ao longo dos anos como grande Menestrel e Cronista, Heltin de Bellanor, em homenagem a grande cidade que acolheu em meus anos de estudo.

 

Apesar do título de Bellanor, eu sou nascido em Dragávia mesmo, capital de Threor e centro de todo o Império de Aço e Magia de Eohen. Meu pai faz parte da milícia de Dragávia, a guarda que mantém a ordem por toda a cidade. É um cara meio bruto e mal-encarado, mas é um homem de bom coração. Minha mãe é uma herbóloga e tem uma lojinha de botica na Velha Dragávia, o bairro mais antigo de nossa capital. Na realidade se formos mais específicos, a loja dela fica na última rua do Grande Mercado. Isso! Se vocês pegam a última rua do Grande Mercado, encontrarão a lojinha da minha mãe. Mas, não estou aqui para fazer propaganda dela, apesar de que seria muito bom termos mais algumas dragas a mais tilintando em nossos bolsos. Desde pequeno tive uma afinidade impar com a arte e quando o circo vinha para Dragávia era sempre uma festa pra mim. E de tanto amar o circo quase fugi com uma contorcionista. É, meio clichê, eu sei, mas ninguém disse que isso era ruim, ainda mais depois que a gente sabe do que ela é capaz de fazer e olha que eu estou me referindo até então, somente as apresentações no picadeiro. Voltando, perdoem-me os lapsos. Deve ser o vinho, estou bebendo já faz algum tempo e estou cansado pela noite de ontem na taverna. Me formei em Música e Literatura na Grande Universidade de Harden em Bellanor, capital de Bellana. Devido aos meus anos na universidade e os serviços prestados foi de lá que veio a minha alcunha, pois foi graças a universidade e o que ela me ofereceu que eu pude chegar onde cheguei. Lá, além de música e literatura eu também aprendi um pouco sobre princípios da magia e algumas de suas escolas que mais na frente entrarei em detalhes. De lá voltei para Dragávia e ainda dei um semestre inteiro de aulas na universidade de Farendur, mas vi que essa vida acadêmica não era pra mim. Eu queria ação. Queria ver de perto os heróis que fazem as lendas, mesmo que muitas vezes isso seja aterrorizante e confesso que não foi nem uma, nem duas vezes que meu almoço deixou meu estômago durante uma luta. Percebam que não fui claro por onde ele me deixou, seria um tanto quanto deselegante.  Ah! Eu sei, eu sei. Vocês querem ação. Mas isso é pra vocês entenderem as coisas antes da história começar. Eu estava no auge dos meus vinte e cinco anos de invernos e verões bem vividos. Meus cabelos ainda eram castanhos e encaracolados, sem traços brancos da idade, como os cabelos dos anjos das estátuas da Catedral do Céu, que por sinal me ajudaram muito a conquistar donzelas na época de faculdade. Olhos castanhos, e tez morena e naquela época sem nenhuma cicatriz. Confesso que não sou do tipo atlético, nunca fui, mas melhorei ao longo dos anos. Mas naquela época, eu parecia mais um homem que havia saído a pouco da desnutrição. Culpa da vida boêmia e dos desejos juvenis regados aos vícios, mas não me culpem. As experiências e os erros me ensinaram mais do que muitos por aí.

 

Toquei também em algumas tavernas para ganhar um dinheiro extra, pois não queria depender apenas do meu financiamento e um jovem bardo como eu precisa pagar as compulsões as vezes até duvidosas. Confesso que nem sempre dão o devido valor a arte e nem todo taverneiro aceita um hospede de graça, ainda mais quando ele dá em cima da garçonete que por triste escolha dos deuses é sua esposa ou filha. Mas tudo bem, outra lição que eu aprendi, quando tocarem em uma taverna, nunca se relacione com os funcionários. As chances de serem da mesma família é grande. Descobri também que as estradas não são tranquilas como parecem. Muito pelo contrário, ainda mais devido as regiões de conflito nos reinos, muitos soldados se tornam desertores e vagam para as regiões mais tranquilas para ganhar a vida como assaltantes, ou alguns pobres coitados começam uma vida de crimes para não morrer de fome, enfim, são os inúmeros motivos que podem levar alguém há alguma coisa. Então se você vir alguém correndo ofegante na estrada, talvez ele não esteja sendo perseguido por um monstro e sim por apenas um assaltante. Ou vários deles. Isso ao longo dos anos me ajudou a manter meu corpinho delgado, mas ainda assim inteiramente sensual.

 

Sem mais delongas, vamos ao que interessa. Eu havia acabado de pedir afastamento da universidade Farendur para poder seguir meu sonho de conhecer o mundo e viajar além das fronteiras acadêmicas. Após uma longa conversa, exaustiva até eu diria, o reitor concordou em financiar minhas viagens, graças a recomendação que o reitor de Harden em Bellanor escreveu para ele. Eu teria recursos, desde que eu registrasse tudo o que eu via para poder ajudar o departamento de história e também o de biologia das duas universidades. Como eu sei desenhar, fiquei incumbido de desenhar qualquer coisa estranha que eu visse e olha que coisas estranhas em Eohen é o que mais existe. Sempre fui um amante de lendas e culturas e decidindo aproveitar os recursos que me haviam sido oferecidos, fiquei também de tentar registrar todas as criaturas que eu encontrasse em um bestiário que serviria para fins acadêmicos. O lado bom, é que caso eu não fosse devorado no processo, isso poderia me render algum dinheiro. O lado ruim, como eu disse, existia o risco de eu ser devorado, ou morto por envenenamento, ácido, fogo, gelo, ou qualquer outra coisa que o monstro possa cuspir em mim caso eu não tivesse cuidado. E depois ser comido ainda assim. Eu havia decidido viajar só. Acredito que alguém que consegue lidar com a própria companhia, pode suportar qualquer coisa. E para não dizer que eu iria inteiramente só, eu tinha ao meu lado uma simpática mula que iria me acompanhar em minha jornada, no qual o cocheiro que me vendera a batizou carinhosamente de Trovão. No alforje eu carregava algumas ervas que minha mãe me deu para ferimentos, queimaduras, desinterias ou qualquer coisa que pudesse me matar. Uma adaga, presente de meu pai, penas, tintas e muito papel para os registros e é claro, bastante vinho e é claro, meu bandolim, porque viajar sem musica é algo que eu acho extremamente desgastante, principalmente quando a gente não vê nada na estrada além de terra e mato. Lembro-me como se fosse ontem eu me olhando no espelho. Camisa de linho branco, calças de algodão tingido de um verde musgo o que combinava muito bem com meu colete da mesma cor, botas de couro cozido com fivelas de ferro e é claro, uma capa de viagem sem graça e marrom por cima de tudo isso.

 

Eu estava animado e ansioso. Eu ia começar uma aventura e como minha mãe sempre disse que eu era do mundo, eu me senti mais empolgado ainda. Subi em Trovão com certo receio e lembro como se fosse ontem dela parecendo gemer com meu pouco peso. Há, esqueci de falar lá em cima. Mesmo meu pai sendo da milícia, não morávamos na vila militar, que é mais um bairro de Dragávia. Morávamos no distrito rural de Lamora, que ficava além dos muros, já fora do limite da cidade. Lamora era como um anexo não oficial. Com casas mais simples, feitas de madeira, onde eram criados porcos, ovelhas e havia o pasto para o gado. Mais ao oeste, já próximo da floresta de Briack podiam ser vistos os grandes moinhos que davam aquela paisagem um toque poético.

 

Antes de pegar a estrada em direção a Erevar, a última cidade do reino de Threor que daria para Aurian, olhei para atrás de vi minha linda Dragávia em pleno pôr do sol de fim de outono. Era o fim de tarde de Servhan, nono mês do ano de 478 da primeira era. Nosso império passava por um momento de paz há quase três anos após a derrota de Aramis em Kaenor, o que me deixava animado para poder viajar por aí sem ter o perigo de ser enforcado ou degolado, ou qualquer outra coisa que venha fazer minha mãe chorar.

O ocaso aos poucos avançava, mergulhando Dragávia na escuridão. A sombra da Montanha dos Reis, já não podia ser notada e ao longe já ouvia corujas e morcegos levantando voo. A Pedra Sol no alto da Torre de Marfim, lar do imperador brilhava como um farol para todos os perdidos que buscavam um caminho e se tinha algum lugar que poderia ser o centro do mundo, seria Dragávia e era de lá que eu saía. Segui viagem sem olhar pra trás, pois não queria aquele sentimento de insegurança em meu peito. Eu sabia que voltaria.

 

No meio da noite, cheguei numa pequena vila chamada Halzern, acredito que pelo número de casas não havia mais do que cem habitantes ali. Respirei fundo para minha primeira parada, buscando sentir o cheiro de alguma aventura, mas tudo o que pude sentir foi o cheiro de mato e estrume, não necessariamente nessa ordem. Segui em direção a única luz acesa no final da única rua onde havia uma placa escrita “Cama Dura”. Lamentei ao entender que era o nome da pousada dali. Pela música que tocava imaginei que o lugar era uma taverna também e me animei um pouco. Dormiria em qualquer cama, desde que eu estivesse bêbado o suficiente. Já próximo da entrada da estalagem um homem voou pela soleira e aterrissou de uma maneira nada agradável no chão. Ele tentou se pôr de pé, mas não conseguiu, não por não ter se machucado, mas talvez pelo fato de estar tão bêbado quanto uma cachorra. Não conseguia sequer pronunciar uma única palavra.

 

- Só volte aqui quando puder pagar a conta, seu arrombado! – Gritou carinhosamente o taverneiro.

 

Olhei para o bêbado e vi que ele se aninhou próximo de onde eu amarrei Trovão e lá mesmo ele adormeceu. O taverneiro olhou pra mim e eu dei meu melhor sorriso animado, ele revirou os olhos e entrou.

 

- Boa noite, meu senhor! Gostaria de um quarto, por favor. – Eu disse.

 

- Estamos cheios essa noite. – Respondeu o taverneiro de maneira surpreendentemente educada. – Se quiser pode ficar no celeiro, mas lá está cheio de pulgas.

 

- Se o senhor me oferecer um desconto, eu aceito sem problemas nenhum. Tem comida?

 

- Aqui isso não falta, meu filho. Venha, vou pedir que lhe sirvam o restante do jantar.

 

O taverneiro tinha um rabo de cavalo preto e pelo porte parecia que sabia brigar e muito bem. Atendia pelo nome de Turk e foi bastante gentil comigo, diferentemente do bêbado que voou pela porta. Ele era um homem truculento e peito largo e braços roliços e cabelos bem escuros. Sua esposa bastante simpática me serviu pão com guisado e uma caneca bem cheia de cerveja. Era mais alta que ele e bem esguia, mas era bonita. Os cabelos estavam presos com um lenço que não consegui ver qual era a cor, mas imaginei que seriam castanhos. Quando eu terminei de comer, Turk me levou até o celeiro.

 

- Peço desculpas novamente por fazer o senhor dormir entre a palha, mas é porque estamos realmente cheios hoje. Além de você quem dorme lá também é um casal que viaja para o norte. O homem parece ter lutado em Barmarral e a mulher que o acompanha é uma serva de Sólum, bendita seja.

 

Um homem que lutou no Império do Sol! Isso me deixava animado, pois Barmarral era uma das regiões do Império Saudaham ao sul de Eohen, um lugar tomado pelo deserto, comandado por um Faraó que insistia em expulsar todos os que não eram nativos de lá. Há anos Aurian enviava cavaleiros e Juízes pra tentar remediar a paz, templários auxiliavam essas negociações que quase sempre terminavam em sangue! Um homem desses deveria ser calejado e ter muitas histórias pra contar! Logo pela manhã falaria com ele e pediria para acompanha-lo em sua jornada!

 

Não foi a palha pinicando, ou os mosquitos em meus ouvidos que me incomodaram durante a noite, nem as pulgas me mordendo. O homem do deserto e a esposa passaram a noite fornicando de um jeito que faria inveja à um sátiro, o que impediu que eu dormisse direito. E pelos gritos e gemidos acho que a vila também deve ter passado a noite em claro ouvindo tudo. Quando adormeci o sol já começava a entrar pelas frestas do telhado que precisava ser remendado e quando acordei já era mais de meio dia e há horas que eles tinham ido embora. Possivelmente eu teria dormido mais se Turk não tivesse gritando novamente com o bêbado.

 

- Seu filho de uma cachorra, se chegar perto daqui de novo eu mato você! Nem o imperador Leoni te salva!

 

Me surpreendi com a capacidade do homem de se manter bêbado e confesso que por um momento eu o invejei e acho que até um anão o invejaria também. Aproveitei que ele estava ocupado tentando se manter em pé e fui até o taverneiro.

 

- Bom dia, senhor Turk. – Eu disse. – Sabe me dizer para qual direção foi aquele casal?

 

- Infelizmente não, meu jovem. Eles pagaram a conta logo cedo e saíram.

 

- Eu sei para onde eles foram! – Disse o bêbado gentilmente não convidado para a conversa.

 

- Poderia me dizer em qual direção seguiram? – Questionei com um sorriso enquanto fingia não sentir o hálito de urubu morto.

 

- Eu levo você até lá.

 

Bêbados sempre tão gentis.

 

- Fique longe dele, Robert. – Rosnou Turk.

 

Robert botou o indicador na boca de Turk como se fosse pra ele ficar em silêncio e virou-se para mim.

 

- Eu estava acordado quando eles saíram e sei o lado que se dirigiram. 

 

Era difícil entender o que ele dizia, juro a vocês, mas suspeitei que tenha sido isso, mais surpreso ainda eu fiquei quando ele conseguiu diferenciar direita e esquerda, mas isso não vem ao caso, foco, força e fé nos deuses que vai dar certo, agora vamos continuar. 

 

– Vem comigo! – Disse ele animado. - As pessoas daqui não me valorizam. – E de maneira extremamente madura estirou a língua para Turk.  

 

- Se viajar com esse traste arrumará problemas. Estou avisando. – Turk deu as costas e voltou para a taverna.

 

Não duvidava do aviso de Turk, mas eu queria conversar com o homem do deserto. E viajar com o bêbado não parecia tão ruim. Eu mesmo já tive meus momentos e uma coisa que eu aprendi é que os deuses cuidam bem dos bêbados.

 

- Poderá ir comigo com uma condição. – Eu disse a Robert. – Se mantenha sóbrio e eu te aceito como companheiro.

 

- Poderemos encher a cara nas tavernas em que pararmos?

 

Era um bom plano.

 

- Podemos.

 

- Fechado!

 

Paguei a conta da minha estadia e segui com Trovão pela estrada em direção ao norte para onde o homem de Barmarral havia ido. Era um caminho completamente oposto do que eu previa, mas parecia uma aventura. Um pouco atrás vinha Robert montado num pangaré tão fedorento quanto ele puxando uma carroça cheia de tralha. Sorri pra mim mesmo, pois minha aventura por Eohen começava, mesmo que fosse com um carroceiro bêbado.