domingo, 19 de setembro de 2021

As Aventuras de Allen Helt

 

1. O Carroceiro Bêbado.

 

 

Saudações, meus amigos! Fico feliz em saber que vocês vieram presenciar minhas jornadas ao redor de toda Anzahil e seus três impérios. Pretendo trazer a vocês um pouco da minha visão desse incrível mundo em que vivemos. Como alguns sabem, eu sou um mero bardo andarilho. A sola de minhas botas está repleta de lama e poeira das longas estradas no qual percorri e durante anos cruzei os seis mares de nosso continente. Passei pelos reinos do Império de Eohen, onde estive das mais altas torres, às mais profundas masmorras, jantei com reis em grandes salões e com camponeses em tavernas. Cruzei as terras áridas do Império Saudaham, onde vi mares de areia e tribos bárbaras tão evoluídas quanto se possa imaginar. Conheci também o império de Toitsu e seus costumes e tradições de eras. Conheci dos mais incríveis heróis aos mais odiosos vilões! E vi que o mundo não é apenas feito de pessoas boas e más e sim de pessoas comuns, como eu e vocês que aqui estão nesse momento.

 

Mas ouçam quem vos diz agora, pois os relatos precisam continuar e por isso serei breve em minha apresentação sobre minha humilde pessoa. Meu nome é Allen Helt. Talvez a maioria de vocês não me conheçam pelo meu nome de batismo e sim pela minha alcunha conquistada ao longo dos anos como grande Menestrel e Cronista, Heltin de Bellanor, em homenagem a grande cidade que acolheu em meus anos de estudo.

 

Apesar do título de Bellanor, eu sou nascido em Dragávia mesmo, capital de Threor e centro de todo o Império de Aço e Magia de Eohen. Meu pai faz parte da milícia de Dragávia, a guarda que mantém a ordem por toda a cidade. É um cara meio bruto e mal-encarado, mas é um homem de bom coração. Minha mãe é uma herbóloga e tem uma lojinha de botica na Velha Dragávia, o bairro mais antigo de nossa capital. Na realidade se formos mais específicos, a loja dela fica na última rua do Grande Mercado. Isso! Se vocês pegam a última rua do Grande Mercado, encontrarão a lojinha da minha mãe. Mas, não estou aqui para fazer propaganda dela, apesar de que seria muito bom termos mais algumas dragas a mais tilintando em nossos bolsos. Desde pequeno tive uma afinidade impar com a arte e quando o circo vinha para Dragávia era sempre uma festa pra mim. E de tanto amar o circo quase fugi com uma contorcionista. É, meio clichê, eu sei, mas ninguém disse que isso era ruim, ainda mais depois que a gente sabe do que ela é capaz de fazer e olha que eu estou me referindo até então, somente as apresentações no picadeiro. Voltando, perdoem-me os lapsos. Deve ser o vinho, estou bebendo já faz algum tempo e estou cansado pela noite de ontem na taverna. Me formei em Música e Literatura na Grande Universidade de Harden em Bellanor, capital de Bellana. Devido aos meus anos na universidade e os serviços prestados foi de lá que veio a minha alcunha, pois foi graças a universidade e o que ela me ofereceu que eu pude chegar onde cheguei. Lá, além de música e literatura eu também aprendi um pouco sobre princípios da magia e algumas de suas escolas que mais na frente entrarei em detalhes. De lá voltei para Dragávia e ainda dei um semestre inteiro de aulas na universidade de Farendur, mas vi que essa vida acadêmica não era pra mim. Eu queria ação. Queria ver de perto os heróis que fazem as lendas, mesmo que muitas vezes isso seja aterrorizante e confesso que não foi nem uma, nem duas vezes que meu almoço deixou meu estômago durante uma luta. Percebam que não fui claro por onde ele me deixou, seria um tanto quanto deselegante.  Ah! Eu sei, eu sei. Vocês querem ação. Mas isso é pra vocês entenderem as coisas antes da história começar. Eu estava no auge dos meus vinte e cinco anos de invernos e verões bem vividos. Meus cabelos ainda eram castanhos e encaracolados, sem traços brancos da idade, como os cabelos dos anjos das estátuas da Catedral do Céu, que por sinal me ajudaram muito a conquistar donzelas na época de faculdade. Olhos castanhos, e tez morena e naquela época sem nenhuma cicatriz. Confesso que não sou do tipo atlético, nunca fui, mas melhorei ao longo dos anos. Mas naquela época, eu parecia mais um homem que havia saído a pouco da desnutrição. Culpa da vida boêmia e dos desejos juvenis regados aos vícios, mas não me culpem. As experiências e os erros me ensinaram mais do que muitos por aí.

 

Toquei também em algumas tavernas para ganhar um dinheiro extra, pois não queria depender apenas do meu financiamento e um jovem bardo como eu precisa pagar as compulsões as vezes até duvidosas. Confesso que nem sempre dão o devido valor a arte e nem todo taverneiro aceita um hospede de graça, ainda mais quando ele dá em cima da garçonete que por triste escolha dos deuses é sua esposa ou filha. Mas tudo bem, outra lição que eu aprendi, quando tocarem em uma taverna, nunca se relacione com os funcionários. As chances de serem da mesma família é grande. Descobri também que as estradas não são tranquilas como parecem. Muito pelo contrário, ainda mais devido as regiões de conflito nos reinos, muitos soldados se tornam desertores e vagam para as regiões mais tranquilas para ganhar a vida como assaltantes, ou alguns pobres coitados começam uma vida de crimes para não morrer de fome, enfim, são os inúmeros motivos que podem levar alguém há alguma coisa. Então se você vir alguém correndo ofegante na estrada, talvez ele não esteja sendo perseguido por um monstro e sim por apenas um assaltante. Ou vários deles. Isso ao longo dos anos me ajudou a manter meu corpinho delgado, mas ainda assim inteiramente sensual.

 

Sem mais delongas, vamos ao que interessa. Eu havia acabado de pedir afastamento da universidade Farendur para poder seguir meu sonho de conhecer o mundo e viajar além das fronteiras acadêmicas. Após uma longa conversa, exaustiva até eu diria, o reitor concordou em financiar minhas viagens, graças a recomendação que o reitor de Harden em Bellanor escreveu para ele. Eu teria recursos, desde que eu registrasse tudo o que eu via para poder ajudar o departamento de história e também o de biologia das duas universidades. Como eu sei desenhar, fiquei incumbido de desenhar qualquer coisa estranha que eu visse e olha que coisas estranhas em Eohen é o que mais existe. Sempre fui um amante de lendas e culturas e decidindo aproveitar os recursos que me haviam sido oferecidos, fiquei também de tentar registrar todas as criaturas que eu encontrasse em um bestiário que serviria para fins acadêmicos. O lado bom, é que caso eu não fosse devorado no processo, isso poderia me render algum dinheiro. O lado ruim, como eu disse, existia o risco de eu ser devorado, ou morto por envenenamento, ácido, fogo, gelo, ou qualquer outra coisa que o monstro possa cuspir em mim caso eu não tivesse cuidado. E depois ser comido ainda assim. Eu havia decidido viajar só. Acredito que alguém que consegue lidar com a própria companhia, pode suportar qualquer coisa. E para não dizer que eu iria inteiramente só, eu tinha ao meu lado uma simpática mula que iria me acompanhar em minha jornada, no qual o cocheiro que me vendera a batizou carinhosamente de Trovão. No alforje eu carregava algumas ervas que minha mãe me deu para ferimentos, queimaduras, desinterias ou qualquer coisa que pudesse me matar. Uma adaga, presente de meu pai, penas, tintas e muito papel para os registros e é claro, bastante vinho e é claro, meu bandolim, porque viajar sem musica é algo que eu acho extremamente desgastante, principalmente quando a gente não vê nada na estrada além de terra e mato. Lembro-me como se fosse ontem eu me olhando no espelho. Camisa de linho branco, calças de algodão tingido de um verde musgo o que combinava muito bem com meu colete da mesma cor, botas de couro cozido com fivelas de ferro e é claro, uma capa de viagem sem graça e marrom por cima de tudo isso.

 

Eu estava animado e ansioso. Eu ia começar uma aventura e como minha mãe sempre disse que eu era do mundo, eu me senti mais empolgado ainda. Subi em Trovão com certo receio e lembro como se fosse ontem dela parecendo gemer com meu pouco peso. Há, esqueci de falar lá em cima. Mesmo meu pai sendo da milícia, não morávamos na vila militar, que é mais um bairro de Dragávia. Morávamos no distrito rural de Lamora, que ficava além dos muros, já fora do limite da cidade. Lamora era como um anexo não oficial. Com casas mais simples, feitas de madeira, onde eram criados porcos, ovelhas e havia o pasto para o gado. Mais ao oeste, já próximo da floresta de Briack podiam ser vistos os grandes moinhos que davam aquela paisagem um toque poético.

 

Antes de pegar a estrada em direção a Erevar, a última cidade do reino de Threor que daria para Aurian, olhei para atrás de vi minha linda Dragávia em pleno pôr do sol de fim de outono. Era o fim de tarde de Servhan, nono mês do ano de 478 da primeira era. Nosso império passava por um momento de paz há quase três anos após a derrota de Aramis em Kaenor, o que me deixava animado para poder viajar por aí sem ter o perigo de ser enforcado ou degolado, ou qualquer outra coisa que venha fazer minha mãe chorar.

O ocaso aos poucos avançava, mergulhando Dragávia na escuridão. A sombra da Montanha dos Reis, já não podia ser notada e ao longe já ouvia corujas e morcegos levantando voo. A Pedra Sol no alto da Torre de Marfim, lar do imperador brilhava como um farol para todos os perdidos que buscavam um caminho e se tinha algum lugar que poderia ser o centro do mundo, seria Dragávia e era de lá que eu saía. Segui viagem sem olhar pra trás, pois não queria aquele sentimento de insegurança em meu peito. Eu sabia que voltaria.

 

No meio da noite, cheguei numa pequena vila chamada Halzern, acredito que pelo número de casas não havia mais do que cem habitantes ali. Respirei fundo para minha primeira parada, buscando sentir o cheiro de alguma aventura, mas tudo o que pude sentir foi o cheiro de mato e estrume, não necessariamente nessa ordem. Segui em direção a única luz acesa no final da única rua onde havia uma placa escrita “Cama Dura”. Lamentei ao entender que era o nome da pousada dali. Pela música que tocava imaginei que o lugar era uma taverna também e me animei um pouco. Dormiria em qualquer cama, desde que eu estivesse bêbado o suficiente. Já próximo da entrada da estalagem um homem voou pela soleira e aterrissou de uma maneira nada agradável no chão. Ele tentou se pôr de pé, mas não conseguiu, não por não ter se machucado, mas talvez pelo fato de estar tão bêbado quanto uma cachorra. Não conseguia sequer pronunciar uma única palavra.

 

- Só volte aqui quando puder pagar a conta, seu arrombado! – Gritou carinhosamente o taverneiro.

 

Olhei para o bêbado e vi que ele se aninhou próximo de onde eu amarrei Trovão e lá mesmo ele adormeceu. O taverneiro olhou pra mim e eu dei meu melhor sorriso animado, ele revirou os olhos e entrou.

 

- Boa noite, meu senhor! Gostaria de um quarto, por favor. – Eu disse.

 

- Estamos cheios essa noite. – Respondeu o taverneiro de maneira surpreendentemente educada. – Se quiser pode ficar no celeiro, mas lá está cheio de pulgas.

 

- Se o senhor me oferecer um desconto, eu aceito sem problemas nenhum. Tem comida?

 

- Aqui isso não falta, meu filho. Venha, vou pedir que lhe sirvam o restante do jantar.

 

O taverneiro tinha um rabo de cavalo preto e pelo porte parecia que sabia brigar e muito bem. Atendia pelo nome de Turk e foi bastante gentil comigo, diferentemente do bêbado que voou pela porta. Ele era um homem truculento e peito largo e braços roliços e cabelos bem escuros. Sua esposa bastante simpática me serviu pão com guisado e uma caneca bem cheia de cerveja. Era mais alta que ele e bem esguia, mas era bonita. Os cabelos estavam presos com um lenço que não consegui ver qual era a cor, mas imaginei que seriam castanhos. Quando eu terminei de comer, Turk me levou até o celeiro.

 

- Peço desculpas novamente por fazer o senhor dormir entre a palha, mas é porque estamos realmente cheios hoje. Além de você quem dorme lá também é um casal que viaja para o norte. O homem parece ter lutado em Barmarral e a mulher que o acompanha é uma serva de Sólum, bendita seja.

 

Um homem que lutou no Império do Sol! Isso me deixava animado, pois Barmarral era uma das regiões do Império Saudaham ao sul de Eohen, um lugar tomado pelo deserto, comandado por um Faraó que insistia em expulsar todos os que não eram nativos de lá. Há anos Aurian enviava cavaleiros e Juízes pra tentar remediar a paz, templários auxiliavam essas negociações que quase sempre terminavam em sangue! Um homem desses deveria ser calejado e ter muitas histórias pra contar! Logo pela manhã falaria com ele e pediria para acompanha-lo em sua jornada!

 

Não foi a palha pinicando, ou os mosquitos em meus ouvidos que me incomodaram durante a noite, nem as pulgas me mordendo. O homem do deserto e a esposa passaram a noite fornicando de um jeito que faria inveja à um sátiro, o que impediu que eu dormisse direito. E pelos gritos e gemidos acho que a vila também deve ter passado a noite em claro ouvindo tudo. Quando adormeci o sol já começava a entrar pelas frestas do telhado que precisava ser remendado e quando acordei já era mais de meio dia e há horas que eles tinham ido embora. Possivelmente eu teria dormido mais se Turk não tivesse gritando novamente com o bêbado.

 

- Seu filho de uma cachorra, se chegar perto daqui de novo eu mato você! Nem o imperador Leoni te salva!

 

Me surpreendi com a capacidade do homem de se manter bêbado e confesso que por um momento eu o invejei e acho que até um anão o invejaria também. Aproveitei que ele estava ocupado tentando se manter em pé e fui até o taverneiro.

 

- Bom dia, senhor Turk. – Eu disse. – Sabe me dizer para qual direção foi aquele casal?

 

- Infelizmente não, meu jovem. Eles pagaram a conta logo cedo e saíram.

 

- Eu sei para onde eles foram! – Disse o bêbado gentilmente não convidado para a conversa.

 

- Poderia me dizer em qual direção seguiram? – Questionei com um sorriso enquanto fingia não sentir o hálito de urubu morto.

 

- Eu levo você até lá.

 

Bêbados sempre tão gentis.

 

- Fique longe dele, Robert. – Rosnou Turk.

 

Robert botou o indicador na boca de Turk como se fosse pra ele ficar em silêncio e virou-se para mim.

 

- Eu estava acordado quando eles saíram e sei o lado que se dirigiram. 

 

Era difícil entender o que ele dizia, juro a vocês, mas suspeitei que tenha sido isso, mais surpreso ainda eu fiquei quando ele conseguiu diferenciar direita e esquerda, mas isso não vem ao caso, foco, força e fé nos deuses que vai dar certo, agora vamos continuar. 

 

– Vem comigo! – Disse ele animado. - As pessoas daqui não me valorizam. – E de maneira extremamente madura estirou a língua para Turk.  

 

- Se viajar com esse traste arrumará problemas. Estou avisando. – Turk deu as costas e voltou para a taverna.

 

Não duvidava do aviso de Turk, mas eu queria conversar com o homem do deserto. E viajar com o bêbado não parecia tão ruim. Eu mesmo já tive meus momentos e uma coisa que eu aprendi é que os deuses cuidam bem dos bêbados.

 

- Poderá ir comigo com uma condição. – Eu disse a Robert. – Se mantenha sóbrio e eu te aceito como companheiro.

 

- Poderemos encher a cara nas tavernas em que pararmos?

 

Era um bom plano.

 

- Podemos.

 

- Fechado!

 

Paguei a conta da minha estadia e segui com Trovão pela estrada em direção ao norte para onde o homem de Barmarral havia ido. Era um caminho completamente oposto do que eu previa, mas parecia uma aventura. Um pouco atrás vinha Robert montado num pangaré tão fedorento quanto ele puxando uma carroça cheia de tralha. Sorri pra mim mesmo, pois minha aventura por Eohen começava, mesmo que fosse com um carroceiro bêbado.

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