2. Mata Selvagem
Aqui estou eu novamente meus queridos amigos! Antes de darmos
continuidade as minhas memórias, eu gostaria de agradecer por terem voltado
aqui para saber o que aconteceu comigo. Hoje estou totalmente sóbrio. Mas como
ninguém é de ferro e eu já não sou tão novo quanto gostaria, pode ser que eu
recorra ao álcool para regar minhas memórias antigas e fazer com que aflorem um
pouco mais.
Em minha jornada atrás do fogoso casal, eu e Robert, que também estava
sóbrio para se manter na carroça, seguimos em direção ao norte pelas estradas
de Threor. Meus planos de Erevar tomaram o caminho oposto e bem, confesso que
foi a melhor decisão que eu tomei, pois fui levado a caminhos além da
imaginação. Depois do vilarejo onde conheci meu querido companheiro de viagem
de faculdades mentais duvidosas, avançamos por cerca de três dias numa estrada
de barro. Robert longe das bebidas era um homem calado, mais sério e chegava
até a ser assustador quando queria. Contei a ele toda a minha história de vida
e a cada frase de efeito ele respondia com um “Entendi”, tão emocionante que
faria inveja à uma múmia entediada. Mas eu me sentia melhor com ele do meu
lado, pois ele era assustador e eu ... Bem, parecia um lindo e elegante gato de
raça, o que é um prato cheio para os assaltantes das estradas. Não que eu
esteja feio hoje. Não, não. Muito pelo contrário. Digamos que eu estou mais parecido
com um vinho que só melhorou ao longo dos anos.
Enquanto eu tentava compor uma canção nova sobre Mimosa, Robert ansiava
pela próxima parada para poder encher a cara. O que não seria possível durante
algum tempo, pois cruzávamos os Campos Verdes, um extenso tapete de grama e
mais grama que se estendia por quase duas milhas ao nosso redor. Lá longe podíamos ver a orla da floresta de
Briack se distanciando cada vez mais, mas o que chamou realmente minha atenção
foi um pequeno grupo de centauros galopando pela grama. Sim, os Campos verdes
de Threor tinham comunidades de centauros que ocupavam a região. Eram
comunidades pequenas e discretas, longe de todo o caos urbano. Eles saíam da
floresta de maneira graciosa. Notei que portavam arcos e lanças. Provavelmente
estavam caçando. Pararam quando nos notaram e nos encararam com olhares
curiosos. Eram seis ao todo. Três machos, duas fêmeas e um filhote. Trajavam na
parte humanoide algo que eu acreditei ser couro, mas pela distância não tinha
como ter certeza. Queria poder vê-los mais de perto, mas eu sabia que se me
aproximasse eles poderiam fugir ou me atacar. Então os deixei em sua
simplicidade e segui pelos campos com meu companheiro alcóolico.
Robert reclamava com o velho pangaré dizendo que ele não servia mais
para nada e que o trocaria por uma garrafa de whisky na primeira oportunidade.
O pobre animal com uma inteligência aparentemente superior ao do seu dono o
ignorava com bastante eficácia e eu confesso que me chateei em ter que parar
minha composição para chamar a atenção do carroceiro.
- Porque insiste em atormentar esse pobre animal? Melhor, porque não
consegue se manter sóbrio por tanto tempo? – Questionei a ele enquanto
dedilhava o alaúde buscando rimar algumas palavras.
- Esse infeliz sabe que são só ameaças vazias. – Mandou um beijo para o
cavalo. – E porque depois que eu voltar a trabalhar não sei quando poderei
encher a cara desse jeito novamente.
- Dó com Si... Talvez um Lá menor... Perdoe-me a indiscrição, Robert,
mas em que você trabalha?
Robert deu um sorriso de canto de boca que me deu um leve arrepio na
espinha e eu achei melhor para o meu bem e de minha ceroula não insistir no
assunto, então mudei o rumo da conversa.
- Acha que estamos próximos?
- Não vai demorar muito, eu acredito. Eles estão a pé, nós seguimos montados.
Acredito que até o pôr do sol alcançaremos eles. – Robert cuspiu no chão. –
Agora fique calado, estamos nos aproximando de Mata Selvagem.
Pra quem não sabe, Mata Selvagem é a floresta mais assustadora de
Threor. Briack. Faz medo? Faz. Lá tem bárbaros e druidas que soltam seus
prisioneiros na floresta apenas para caçá-los. Em Mata Selvagem temos bárbaros
que nem se dão ao trabalho de fazer prisioneiros, além de que a floresta é
infestada de lobos e como se isso não bastasse, ainda é famosa por ser
extremamente expeça, o que facilita assaltantes de se esconderem lá.
Minha alegria de unicórnio foi se esvaindo a medida que eu avançava para
dentro da floresta. E não riam pelo fato de eu ter dito que eu tinha a alegria
de um unicórnio, pois eles realmente são seres alegres. Mas isso é uma outra
história. Voltando, Mata Selvagem era ainda mais assustador do que descreviam.
O lugar era basicamente de faias e bétulas. Consegui identificar ali também
alguns carvalhos e nogueiras mais ao fundo e confesso que estava sem a menor
vontade de ver que tipo de vegetação poderia encontrar ali. Na época da
faculdade, eu tive um breve caso com uma professora de geografia, no qual não
citarei nomes nem sob tortura, pois não pretendo entregar nenhuma colega de
profissão com esses relatos. Ela me disse que a região onde se localizava Mata
Selvagem poderia conter uma diversidade de plantas e animais por causa do solo
e do clima temperado de Threor, mas na época eu não dei muita importância. Fiz
alguma piada infame sobre o que realmente era temperado ela riu e voltamos a
coisas mais interessantes que aula. Mas vamos voltar, pois não estou sendo pago
pelo reitor para falar de vegetação. Na realidade estou sendo pago para falar
de tudo o que eu visse em minha viagem, mas como esses relatos não são
acadêmicos e meu bloco de anotações chatas está guardado, vou continuar a
história. Por ser o nono mês do ano, estávamos próximos do final do verão e a
floresta começava a ganhar aquele tom alaranjado do outono, o que deixava as
sombras no coração da floresta ainda mais arrepiantes. A estrada ainda podia
ser vista, mas em dois meses no máximo aquilo estaria repleto de folhas mortas
que seriam levadas pela chuva e no alto do inverno tudo estaria cheio de neve.
Ao oeste eu conseguia ver o Monte Faradar e as ruínas de Ohrein um pouco
antes. Ohrein era uma antiga cidade bastante rica até ser consumida pelo fogo
de um dragão. Pelo menos foi o que me contaram. Em todos esses anos de vida
nunca vi um dragão que não fosse das Escamas Douradas, que é um grupo de
cavaleiros que voam montados em dragões. Eles são a arma mais poderosa do
imperador numa guerra e eu confesso que por mais empolgante que possa parecer,
não é. Eles são realmente assustadores. O que me confortou em passar por ali
era que nenhum dragão selvagem era visto há mais de trezentos anos por aquelas
bandas. Dizem que a criatura ainda dorme embaixo da cidade, mas tudo o que se
sabe é que Ohrein abriga apenas grupos de criminosos foragidos.
Saí dos meus devaneios assustadores para encontrar a realidade com uma
flecha atingindo a carroça de Robert. Quando vi a haste balançando pensei que
meus olhos sairiam do lugar de tanto que os arregalei. Outra flecha zuniu na
minha frente e de maneira bastante corajosa eu me joguei de cima de Trovão para
atrás da carroça de Robert.
- Vamos morrer! – Eu gritei de maneira calma.
- Cale a boca e tente ficar parado. – Disse Robert tirando de dentro da
carroça um arco e uma aljava cheia de flechas.
Como assim ele tinha um arco?! Pelo que aquele homem conseguia beber
deveria ser proibido de portar armas, poderia acertar o próprio pé. Mas graças
a Dahila, ele parecia saber o que estava fazendo. Depois de três flechas
disparadas os sons da floresta pararam. Robert me segurou pela capa e como se
eu fosse um nada ele me jogou em cima da carroça e pôs o pangaré a violento
galope. Por sorte Trovão estava amarrado à carroça dele e logo começou a correr
também. E eu tinha certeza de que minha égua não morreu da troca de flechas
enquanto pastava, ela morreria da carreira.
A carroça chacoalhava de um lado para o outro e por diversas vezes eu
bati em algo duro ali. Levantei a manta que cobria e vi uma armadura negra com
detalhes de cobre e um elmo de queixo pontiagudo. Robert olhou por cima do
ombro para mim e eu cobri tudo novamente. Não queria provocar meu salvador. No
meio do barulho do meu corpo batendo na bagagem de Robert comecei a ouvir um
tilintar de metal. Como se estivesse acontecendo uma luta. Arrisquei-me olhar
para ver o que acontecia e vi quem eu estava procurando. O guerreiro de
Barmarral e a esposa agora vestidos enfrentavam o que parecia ser um grupo de
assaltantes. O homem portava uma maça circular coberta com vergalhões por toda
a superfície em sua mão esquerda e na direita uma espada longa de cabo dourado
com um rubi no centro da guarda. A mulher que estava com ele segurava uma
espada curta com as duas mãos e parecia bastante atenta aos homens próximos a
ela.
- Segure-se. – Disse Robert. E antes de eu perguntar o motivo ele bateu
no cavalo com as rédeas da carroça e aquele velho pangaré começou a correr mais
do que um alazão. Olhei para Trovão e minha pobre mula parecia chorar para
tentar acompanhar o cavalo de Robert, porque agora eu poderia chama-lo de
cavalo, pois depois desse galope havia ganhado meu respeito, ainda que
continuasse fedendo como um cadáver. Só entendi o que Robert fez quando
atropelamos três dos cinco assaltantes. Ao que parecia o homem e a mulher já
haviam dado cabo de pelo menos mais três, pois a maça que ele portava estava
suja de sangue com o que eu jurava ser resto de maça cerebral nos vergalhões.
Os dois assaltantes que ainda estavam de pé correram para dentro da
floresta, mas pelo uivo que eu ouvi imaginei que não iriam muito longe. Me
coloquei de pé meio tonto e fui até minha pobre mula para ver como ela estava e
parecia meio nervosa. Olhei em volta e vi seis corpos no chão. Os três que
Robert atropelou que estavam estirados em posições que eu julguei serem
desconfortáveis se eles ainda estivessem vivos, um com a cabeça inteiramente
aberta e o maxilar solto numa poça lamacenta de sangue, um com a garganta
aberta e o ultimo com um corte em diagonal do ombro a cintura. Há quem ache que
matar assaltantes é algo incrível, mas não é. Gente morta é feio. Ainda mais se
a morte não tiver sido por causas naturais e pelo meu conhecimento ao longo dos
anos, morrer por armas não é algo que possa ser chamado de natural. Talvez
comum, mas natural não. E apesar daquela horrível cena, eu ainda estava eufórico.
Eu tinha derrotado os meus primeiros assaltantes de estrada! Estava em
uma aventura! Sim, eu fiz parte da vitória, pois em nenhum momento eu fugi de
fato. Corri para detrás da carroça de Robert para protege-lo antes de saber que
ele tinha um arco. Afinal, quem era Robert? Queria perguntar, mas achei mais
prudente ficar com minhas perguntas guardadas.
- Muito obrigado pela ajuda. – Disse o homem com a maça.
- Chegaram no momento certo. – Respondeu a mulher com ele.
O homem mesmo sujo de sangue e parecendo de mal humor tinha uma
expressão serena no rosto chupado com uma longa cicatriz na bochecha esquerda.
Tinha cabelos ruivos e muito curtos, que já começavam a ser tingidos de prata.
Usava um manto branco se não fosse o sangue dos assaltantes e por baixo pude
notar que trajava uma cota de malha de aço. O broche que prendia sua capa
parecia uma fênix, o que me levava a crer que era um servo de Aurion. A mulher
mais baixa do que ele por uma cabeça, ainda assim era alta. Tinha cabelos
loiros caídos em elegantes ondas. Usava um longo vestido de um amarelo bem
suave que tinha uma gola que ia até o pescoço e usava um pingente dourado com
uma fênix que ia até o meio dos volumosos seios.
Servos de Aurion, deus da luz. Obrigado deuses, por serem servos de um
deus benevolente. Não sei o que eu faria se encontrasse um servo de Morrin, ou
Mordh.
- Meu nome é Barzan. – Disse o homem. – E essa é minha esposa Charlote.
Mesmo cobertos de sangue eram extremamente simpáticos e gentis.
- Meu nome é Allen Helt. – Me apresentei estendendo a mão de maneira
confiante agora que eu estava em segurança. Esse homem comigo é Robert. -
Robert e Barzan trocaram um olhar demorado e se contentaram com um aceno com a
cabeça.
- Era você que estava no estábulo? – Perguntou Barzan.
- Eu mesmo. E confesso que por mais... lasciva que tenha sido a noite de
vocês, eu agradeço por terem se preocupado com meu sono. Sério, quase não ouvi
vocês. – Sorri de maneira cínica.
- Peço desculpas por isso. – Disse Charlote com um tom de voz desafiador
levemente tocado por vergonha.
Eu esperava muita vergonha, timidez, mas aquilo? Precisava me lembrar de
que se fossemos para uma estalagem eu teria que pedir um quarto bem longe
deles.
- Turk me disse que você lutou em Barmarral, é verdade? – Mudei de
assunto antes que fosse eu a ficar constrangido.
Barzan e Charlote trocaram um rápido olhar, mas foi Robert que falou.
- Vamos deixar pra conversar quando saímos daqui. Logo vai anoitecer e
quando isso acontecer pretendo já ter saído dessa maldita floresta com vocês.
Era um bom plano.
Seguimos o mais rápido que pudemos. Robert levou Barzan e Charlote em
sua carroça e pouco antes do sol se pôr por completo já havíamos deixado a
floresta. Ao longe conseguíamos ver as luzes dos vilarejos próximos dali, além
dos pastos e fazendas que se estendiam agora por nossa frente junto com um céu
carmesim de fim de tarde.
- É aqui que eu me despeço de você. – Disse Robert de súbito.
- Do que você está falando? – Confesso que fiquei surpreso com a abrupta
despedida dele.
- Meu acordo era trazer você até eles e me manter sóbrio até a próxima
parada. – Disse ele de maneira calma. - Você está com eles e eu preciso encher
a cara agora e confesso que prefiro beber sozinho do que numa estalagem de
algum daqueles vilarejos. Além do que, logo terei que voltar ao trabalho e eu
prefiro estar com uma ressaca violenta quando isso acontecer, pois sei que a
dor de cabeça que vou ter será terrível.
- Sério, Robert, o que diabos você faz?
Novamente ele sorriu de maneira desagradável.
- Tente ficar vivo, bardo. Espero encontra-lo novamente para ouvir o
final da sua música e mais um pouco de suas histórias.
Robert deu meia volta no cavalo e voltou em direção a Mata Selvagem
antes que eu fizesse qualquer questionamento.
- Acabamos de sair daí! – Eu disse a ele, pensando que faria algum
efeito. – Pra que você vai voltar se foi o primeiro a dizer que não queria
estar nessa floresta.
- Eu disse que não queria estar nessa floresta com vocês. – Falou sem
olhar pra trás.
Confesso que não entendi na hora o motivo dele ter se afastado tão
depressa, mas depois quando encontrei com Robert em Valdum após alguns meses
ele me explicou o motivo de ter saído daquela maneira e me explicou também o
que ele realmente fazia. Mas isso será uma história mais pra frente.
Robert logo sumiu na trilha que dava para aquele lugar horrendo e por
incrível que pareça aquela visão dele se afastando me deu a rima que eu
precisava para terminar minha música.
Calma, deixa eu procurar aqui... Só um momento... Achei!
Avançando pelo mundo sem destino
Sigo com Trovão o meu caminho
Sem saber que perigos vou encontrar
Sem saber o que tem nas sombras a me esperar
Lembro de um carroceiro bêbado
Que me acompanhou sem medo
Pelos desafios que os deuses deram a mim
Ele e seu velho pangaré só temiam pela bebida já no fim.
Era ágil quanto um gato
Matou três, cada um com um disparo
E na floresta por fim desapareceu
Seu acordo comigo e Trovão ele obedeceu.
Eu sei, eu sei. Lindo demais. Obrigado, obrigado. Não, não precisa ficar
de pé para me aplaudir. Sim, os deuses me agraciaram com uma voz bela e dedos
maravilhosos. Enfim, continuando, segui com Charlote e Barzan.
Enquanto cruzávamos um grande pasto de fazenda Barzan falou.
- O que deseja saber sobre Barmarral? – Perguntou ele meio taciturno.
- Como é lá?
- Quente como o inferno. – A voz estava tensa. – Imagine um mar de areia
se estendendo a sua frente. Dias tão quentes que fazem você pensar em se matar
e noites tão frias que fazem um homem querer chorar. A guerra lá não é por
causa do faraó como dizem. Bem, não apenas por ele, é claro. O que acontece é
que há alguns anos os poços de água que existiam nas cidades foram tomados e
devido as guerras nas fronteiras o faraó não conseguia manter as duas frentes
militares. Foi aí, que nós entramos. Aurian enviou soldados com o apoio da
Catedral do Céu para Barmarral para auxiliarmos o faraó a retomar a água da
região, enquanto seu exército lutava nas fronteiras do reino. O problema, é que
após conseguirmos recuperar os poços, em vez de irmos, começamos a cobrar
impostos. Claro que muitos não gostaram, afinal não se deve negar água e
novamente os conflitos começaram. O povo de lá, não queriam aceitar soldados
estrangeiros cobrando a elas seu dinheiro e o faraó não poderia ficar contra o apoio
da igreja, pois não teria como continuar sua campanha militar. Então a própria
população começou a se rebelar e uma nova guerra se iniciou com a água sendo
comercializada e apoiada pelo faraó e a igreja. E nós que fomos para salvar o
povo, nos tornamos inimigos deles.
- Não é essa a história que contam por aqui.
- Nunca é. É mais fácil usar o faraó que apoia a igreja como vilão e nós
os salvadores, do que nós também sermos vistos com maus olhos. Infelizmente a
alta cúpula da catedral tem visado mais os tesouros que o império do sol têm,
do que a própria vida do povo.
Era notória a decepção em sua voz.
- E quanto a você?
- Devido à um ferimento que quase me matou eu consegui voltar pra cá.
Tivemos uma luta violenta próximo de Maleha e se não fosse Charlote e a Ordem
do Pássaro Vermelho eu estaria morto. Ela cuidou de mim até que eu pudesse
ficar de pé novamente e depois disso sempre que era possível eu ia visitá-la.
Charlote passou o braço em volta do braço do marido. Era bom ver a
sintonia que eles tinham. A cumplicidade, a parceria. Sonhava em encontrar
alguém assim um dia.
- Acha que essas disputas podem causar uma guerra entre nós e o Império
do sol? – Perguntei enquanto cruzávamos as fazendas. Como Charlote e Barzan
estavam a pé eu decidi acompanhá-los.
- É pouco provável, pois o faraó tem apoio dos sultões que comandam os
reinos. A menos que ele seja destronado pelo povo ou os chefes tribais e o
sucessor decidam se virar contra Eohen, dificilmente entraremos em guerra. Na
minha opinião, aquele lugar não tem nada. Barmarral não passa de um grande
deserto povoado. – Terminou amargo.
Fiquei processando a nossa breve conversa enquanto avançávamos
silenciosamente pela estrada. Eu queria continuar conversando, mas estava
cansado e pelo jeito Barzan e Charlote também, pois assim como eu eles não
falaram muito.
Caminhamos até Faurar, uma cidade pequena ainda em Threor, para
encontrarmos uma estalagem em que pudéssemos passar a noite para na manhã
seguinte pegarmos a estrada. O lugar era bem movimentado e se encontrava no
centro da cidade, próximo de uma grande praça onde no centro havia uma igreja
voltada para todo o panteão.
Na estalagem eu pedi o quarto mais longe do deles para conseguir dormir
bem e confesso que pelo cansaço que eu estava, mesmo que eles estivessem
fornicando como demônios do meu lado eu teria dormido como uma pedra.
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